terça-feira, 15 de maio de 2018

Poemas eróticos (6)

                                Exu
                  Lábios vermelhos
                   Muito vermelhos
                  Acesos e acesos e
                 haciendo-me entrar
             – vem vem me ver por
                             dentro
            E eu vou à fenda – acesso
               labiríntico a chamar
            A brasa – chama rubra e
                      corpo negro

       (Abílio Ferreira – CN 13, p.63).

Do site:
https://www.geledes.org.br/poesia-erotica-nos-cadernos-negros/.

Poemas eróticos (5)

O Prazer Nosso.
Amada minha que
estais no cio;
cultuado seja o
vosso corpo;
venha o prazer ao
nosso leito; sejam
saciadas nossas
vontades, sem
tabeliães e sem
véus. Um amor
pleno de poesias
gozai hoje;
desfrutaremos
nossas querenças;
um minuto sequer
não percamos,
discutindo leis que
nos têm reprimido.
Vamos copular
com emoção,
porque amar
nunca fez mal...
Axé!

(Oubi Inaê Kibuko – CN 11, p.63)

Do site:
https://www.geledes.org.br/poesia-erotica-nos-cadernos-negros/.

Poemas eróticos (4)

Mar Glu-Glu
bunda que mexe remexe e me levanum belo novelo de apelo e chamego
me pego a pensar que essa vida
precisa envolver como tu
nesse dengo gostoso que nina e mastiga
meu olho que vai atrás
sonho carnudo embalando as ondas ou dunas colinas montanhas veludomoventes do caminhar
balanço de exuberância a marolar a distância…
a bunda é mergulho e murmúrio no mar glu-glu
a forma do espaço repleto e nu.
(Cuti – CN 7, p.34)

Do site:
https://www.geledes.org.br/poesia-erotica-nos-cadernos-negros/.

Poemas eróticos (3)

                          você entra…
               você sai… eu sus… eu
                               sus
              você vem… você vai… eu
                            piro… piro…
             você faz tudo você entra…
                você sai…eu hummm…
                         hummpmmh
                           você vem…
                             você sai…
             eu deixo você vem… você     
                               entra…          
                             você sai..
                             eu deixo
                você entra… você vem…
                        fundo fundo
                           eu fecho
                          você jazz.

(Marise Tietra – CN 5, p.59).

Do site:
https://www.geledes.org.br/poesia-erotica-nos-cadernos-negros/.

Poemas eróticos (2)

Tempos de Amor
1) A boca em molhado círculo
envolvendo a pica
ou beijando com suavidade imensa a suada virilha
2) A língua tesa enfiada
na bunda
ou buscando em dança perfeita da buceta o salino sabor
3) Em dois tempos o desejo inunda
corpos marrons em marés de amor

(Márcio Barbosa – CN 13, p.43)

Do site:
https://www.geledes.org.br/poesia-erotica-nos-cadernos-negros/.

Poemas eróticos (1)

“Ice-Dream”
Teus lábios… framboesa.
Meu sorvete… chocolate.
Você chupa…
A gente se aquece, se funde…
O gelo derrete…
Você amolece, Eu me enrijeço.
Teus lábios… morango.
Minha cobertura… caramelo.
Arfando… gemendo,
Meu creme transborda,
Em jorros de emoção,
Prazer… e alimento.
(De Paula, W.J. – CN 7, p.40)

Do site:
https://www.geledes.org.br/poesia-erotica-nos-cadernos-negros/.

sábado, 28 de abril de 2018

Jockerman, Bob Dylan - tradução

Jockerman - Tradução.
CORINGA

De pé sobre as águas
Distribuindo o seu pão (1)
Enquanto os olhos do ídolo
Com a cabeça de ferro brilham (2)

Navios distantes
Navegam pra bruma (3)
Você nasceu com uma serpente em ambos os punhos
Enquanto um furacão soprava (4)

Liberdade, bem ali na esquina pra você
Mas com a Verdade tão distante
Que bem iria fazer? (5)

Coringa dançando para a melodia do rouxinol
Pássaro voa alto à luz da lua
Oh, Coringa

Tão rápido o sol se põe no céu,
Você se ergue e se despede de ninguém (6)
Tolos se precipitam
Aonde os anjos temem pisar

Ambos os futuros tão cheios de horror
Você não revela nenhum (7(
Trocando mais uma camada de pele
Mantendo um passo à frente do perseguidor interior (8)

Você é um homem da montanha
Você pode caminhar sobre as nuvens

Manipulador das multidões
Você faz os sonhos se torcerem
Você vai pra Sodoma e Gomorra,
Mas o que te importava?
Não tem ninguém por lá
Que quisesse casar com sua irmã (9)

Um amigo do mártir,
Um amigo da mulher da vergonha, (10)
Você olha a fornalha ardente
Vê o homem rico sem nome (11)

O livro de Levítico
E o Deuteronômio (12)
A lei da selva e o mar
Foram seus únicos mestres

Na fumaça de um crepúsculo
Sobre um corcel branco como leite
Michelangelo, realmente,
Podia ter esculpido sua figura (13)
Descansando nos campos, longe do espaço turbulento,
Meio adormecido entre as estrelas
Com um cachorro pequeno lambendo a sua face (14)

O homem do rifle faz tocaia
Para o doente e o aleijado
O pastor vai receber o mesmo
Quem vai chegar primeiro, é incerto (15)

Cacetetes e canhões de água,
Gás lacrimejante, cadeados,
Coquetéis molotov, e pedras,
Atrás de cada cortina  (16)
Juízes de coração falso
Morrendo nas teias que tecem (17)

Apenas uma questão de tempo
Até que a noite venha se aproximando (18)
É um mundo repleto de sombras
Os céus são escorregadios e cinza (19)

Uma mulher deu à luz um príncipe hoje
E o vestiu de escarlate (20)
Ele vai colocar o sacerdote no bolso (21)
Vai colocar a lâmina para aquecer (22)
Vai tirar as crianças sem mãe das ruas
E colocá-las aos pés de uma prostituta.(23)

Oh, coringa, você conhece o desejo do homem!
Oh, coringa, você não oferece qualquer réplica!

Coringa dança para a melodia do rouxinol
Pássaro voa alto à luz da lua
Oh, Coringa

(1) No primeiro verso, já temos a referência a Jesus, embora em nenhum momento da canção ele seja diretamente mencionado. Mas Jesus é quem caminha, ou fica em pé, sobre as águas do Lago de Genesaré, na Galiléia. No segundo verso, a referência é ao milagre da multiplicação dos pães (ver Mateus 14, 14 a 33).

(2) Deve ser a inveja que faz brilhar os olhos do ídolo feito de ferro, diante da visão do Deus vivo.

(3) Os navios do lago da Galiléia, onde Jesus caminhou sobre as águas? Uma metáfora das vidas caminhando para a morte?

(4) Hércules estrangulou com os punhos, no berço, duas serpentes enviadas por Juno para matá-lo. Também o furacão indica um momento de perturbação, talvez uma referência à reação violenta do velho mundo ameaçado pela nova era que seria inaugurada pelo Messias. Herodes e o massacre dos inocentes.

(5) Nesta estrofe, a referência talvez seja à tentação de Jesus no Jardim de Getsemani. Ele poderia se livrar de seus perseguidores e de seu destino. Bastaria rezar ao Pai, e um exército de anjos surgiria para afastá-lo do cálice. Mas com a Verdade perdida, de que serviria? Jesus não se apresenta como o Caminho, a Vida e a Verdade? E a Verdade não libertará? Seja feita a Vossa vontade, portanto. (cf. João 8, 21 a 47).

(6) O sol se põe, a morte na cruz? E, após, erguer-se pode ser uma referência à ressurreição, e que não haveria despedida, porque permaneceria vivo como Espírito Santo para seus discípulos.

(7) Um aspecto do Coringa, o misterioso. Os tolos e os anjos têm de enfrentar seus destinos, e a morte, cada qual à sua maneira, mas ambos na escuridão. “Pois eu vos digo: Amai vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem, para serdes filhos de vosso Pai que está nos céus. Porque ele faz nascer o sol para bons e maus, e chover sobre justos e injustos.”

(8) Novas referências à ressurreição? O perseguidor interior = a morte?

(9) A referência aqui é a Gênesis, 18 e 19. O Jokerman é identificado com o próprio Deus, que decidiu destruir Sodoma e Gomorra pela impiedade de seus habitantes. Mas antes envia dois anjos que vão livrar o justo Ló e sua família da aniquilação. “Ninguém por lá que quisesse casar com sua irmã” - a irmã do Jokerman seria as duas filhas de Ló, o homem justo? Casar com elas seria desposar a justiça. Mas os habitantes de Sodoma queriam violentar os hóspedes de Ló, os anjos do Senhor. O que importava ao Senhor visitar a terra dos homens ímpios? Ainda assim, Ele o faz, na representação de Seus anjos, e conforme a instigação de Abraão, para defender os Seus justos. Ou, melhor dizendo, os que tentam ser justos. Não é fácil entender a atitude de Ló, sacrificando a honra de suas filhas pela de seus hóspedes.

(10) “Amigo do mártir”, como, por exemplo, no apedrejamento de Estêvão (Atos, 7, 54 a 60), o primeiro mártir. “Amigo da mulher da vergonha”, por exemplo, ao salvar do apedrejamento a mulher adúltera (João, 8, 1 a 11), ou ao perdoar os pecados da mulher comumente identificada como Maria Madalena (Lucas, 7, 36-50).

(11) O rico sem nome aparece na parábola do rico e do pobre Lázaro, Lucas, 16, 19-31. Este rico da parábola de fato arde no fogo, e não tem nome, ao contrário do pobre, chamado Lázaro. Talvez não ter nome signifique perder a identidade, por amor à riqueza, ou que a condenação não se prende a um homem específico, mas à condição do homem, qualquer homem, que se prende à riqueza. Que idolatra a riqueza.

(12) Quando perguntaram a Jesus qual era o maior mandamento da Lei, Ele respondeu: “Amarás o Senhor teu Deus de todo o coração, com toda a alma e com toda a mente. Este é o maior e o primeiro mandamento. Mas o segundo é semelhante a este: Amarás o próximo como a ti mesmo. Destes dois mandamentos dependem toda a Lei e os Profetas” (cf. Mateus, 22, 34 a 40). O primeiro mandamento Jesus retira de Deuteronômio 6,5, e o segundo, de Levítico, 19,18. Daí os mestres de Jesus, além da lei da selva e o mar, isto é, a própria natureza.

(13) Michelangelo realmente esculpe a figura de Jesus, mas apenas na Pietá, que eu me lembre. O “corcel branco como leite” pode ser apenas símbolo de majestade.

(14) Este trecho me parece uma representação da natureza dupla de Jesus, divina e humana. Em paralelo, o turbulento espaço/as estrelas, e os campos/o cachorrinho lambendo a face.

(15) Os pastores, os doentes, os aleijados, são todos vítimas do homem com o rifle fazendo tocaia, da crueldade e da covardia humanas, da morte. Permanece oculto o destino de cada um, quem vai ser o primeiro a enfrentar a morte? (Who´ll get there first is uncertain). Compare nota 7.

(16) Nas imagens de um distúrbio de rua, de um conflito entre policiais e manifestantes, um símbolo para a violência que se oculta em cada coração. A hipocrisia.

(17) Nova imagem de hipocrisia, agora como causadora da perdição daqueles mesmos que a praticam.

(18) Noite=morte. A igualadora, inescapável. “Apenas uma questão de tempo...”

(19) Imagem trágica da vida: incerta, enganadora (cinza), com a sorte mutável (escorregadia), e ameaçada pelo mal (mundo repleto de sombras).

(20) Nesta vida trágica surge a esperança, Jesus, o Príncipe que foi dado à luz pela humilde Maria. Ela o vestiu de escarlate, cor que denota nobreza, ou com seu próprio sangue no momento do parto, a natureza humana desse Deus surpreendente, motivo de escândalo para tantos?

(21) São diversas as passagens em que Jesus surpreende e confunde os sacerdotes, os escribas, os doutores da Lei. Por exemplo, Mateus, 22, 15 - 22, 41 - 46; João, 3, 1 - 15. E “ficaram todos tão espantados que perguntavam uns aos outros: “O que é isso? Uma doutrina nova, dada com autoridade! Ele manda até nos espíritos impuros e eles lhe obedecem” (Marcos, 1, 27 - 28).

(22) “Colocar a lâmina para aquecer”, como um ferreiro que aumenta o gume da espada, tornando-a mais afiada. “Não penseis que vim trazer a paz à terra. Não vim trazer a paz, e sim a espada. Pois vim separar o filho de seu pai, a filha de sua mãe, a nora de sua sogra. Os inimigos da gente serão os próprios parentes” (Mateus, 10, 34 - 36 e Miquéias, 7,6).

(23) Jesus mostra-se frequentemente surpreendente, como estes versos, subvertendo os valores corriqueiros. Ver nota 10, exemplos da atitude de Jesus, escandalosa aos olhos de seus contemporâneos, de perdão diante das “mulheres da vergonha”. “Tirar as crianças sem mãe das ruas, e colocá-las ao pé da prostituta”, significará amparar as crianças deixadas ao abandono pela indiferença humana, e honrar as prostitutas, habituais repositórios do desprezo dos felizardos(as) bem-de-vida, confiando aqueles órfãos aos cuidados destas.

sexta-feira, 27 de abril de 2018

Lula e as trincheiras que dividem o Brasil

Da Deutsche Welle.

O colunista visita um ruralista branco e uma jovem estudante negra para ouvir o que eles pensam sobre o ex-presidente: parece que vivem em planetas distintos.

"Quando falamos de Lula são reveladas as trincheiras que atravessam o Brasil. São rachaduras sociais, étnicas e geográficas"

Para mim, Lula é menos um caso criminal do que um símbolo das fissuras do Brasil. O que está em disputa são ideias totalmente diferentes de Brasil. Duas narrativas se enfrentam irreconciliavelmente.

Lula virou o campo de batalha de uma sociedade que nunca existiu como sociedade e que há 500 anos é dominada por antagonismos, contradições e extremos. Quando me pergunto sobre o que mantém o Brasil unido, encontro: a língua, a Seleção e o peculiar orgulho de ser brasileiro. Mas o que mais existe além disso, com o que todos podem concordar?

Até hoje, quem manda no Brasil são grupos de interesse que não pensam no bem comum, mas na preservação dos seus privilégios. A elite mesquinha deste país nunca entendeu que todos vivem melhor quando ninguém vive mal. Uma ideia coletiva, cívica e positiva de nação, portanto, nunca se formou.

Quando falamos de Lula são reveladas essas trincheiras que atravessam o Brasil. São rachaduras sociais, étnicas e geográficas. Usando um ditado alemão do Fausto de Goethe, pode-se dizer: "Diga-me como você vê Lula, e eu lhe direi quem você é."

Questionei duas pessoas, que não poderiam ser mais diferentes, sobre o Lula. Elas só têm uma coisa em comum: ambas dizem ter orgulho de serem brasileiras. E as duas, em seus contrastes, fazem desse país o que ele é.

Uma se chama Gustavo Chavaglia. Ele mora na pequena cidade de Ituverava, no longínquo interior de São Paulo, onde a cana-de-açúcar domina a economia e as paisagens. Aos 48 anos, ele é ruralista e presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Soja de São Paulo (Aprosoja). Orgulhoso produtor rural, ele considera sua profissão a espinha dorsal econômica do Brasil: "A produção rural foi e é a responsável pela segurança alimentar e pelos excedentes que possibilitaram o superávit na balança comercial."

Chavaglia é descendente de imigrantes europeus, ele dirige uma SUV e é branco. Quando nos encontramos, ele veste uma camisa com gola larga, jeans e sapatos de couro, e usa um relógio caro no pulso. A minha impressão é de um homem bem resolvido, amigável e cordial.

Não é difícil perceber que Gustavo Chavaglia não gosta nem de Lula nem do PT. "Nossa bandeira é verde e amarela", diz. "Ela não é vermelha." Durante a conversa, Chavaglia reclama do "populismo com viés eleitoreiro que sempre foi a marca das campanhas da esquerda brasileira". Outros alvos de sua rejeição são os ambientalistas, que ele chama de "ambientaloides"; o Movimento Sem Terra, MST ("eles não trabalham"); e os movimentos indígenas (que também "não trabalham").

São as mesmas frases que já escutei muitas vezes no interior do Brasil, de fazendeiros e agricultores brancos, seja em São Paulo, seja em Mato Grosso do Sul ou Rondônia. Nesse ambiente é de bom tom chamar movimentos sociais de "vagabundos".

Chavaglia acha bom e justo que Lula esteja preso. "Cansamos de demagogia", diz. "Mesmo assim, a sensação não é de comemoração, mas de indignação pelas atrocidades cometidas pela classe política." O produtor rural, para ele, é vítima de incompreensão há muitos anos. "Em todas as gestões de ex-presidentes, o produtor rural sobreviveu e se adaptou à falta de política pública para o agronegócio." Fico um pouco surpreso com essa afirmação, pois achei que o agronegócio era um dos grandes beneficiários dos últimos 20 anos.

Sobre a ditadura militar, Chavaglia tem uma opinião que tenho ouvido cada vez mais nos últimos anos. É o revisionismo de direita, que busca relativizar os crimes e a corrupção dos militares: "É necessário que se observe que uma intervenção militar em 1964 se deu pelo clamor público frente à ameaça de pseudocomunistas".

Quando finalmente pergunto a Chavaglia se os produtores rurais não estavam se dando muito bem durante o governo Lula, que era um tempo de boom econômico, ele diz que esse boom não se deveu ao PT, mas ao governo antecessor, de FHC: "O país gozava da estabilidade econômica do Plano Real." Ele resume os 13 anos do PT em duas palavras: "Desmando e irresponsabilidade".

Para Quênia Emiliano, o mundo é outro. Ela mora a 530 quilômetros de Chavaglia, mas é como se vivesse em outro planeta. Esta jovem de 28 anos divide um apartamento com seus irmãos no bairro do Riachuelo, no Rio de Janeiro. Atualmente, está terminando sua faculdade de Direito e faz estágio na Procuradoria-Geral do Município do Rio de Janeiro.

Quando ela se apresentou como nova estagiária – ela passara em concurso público –, a surpresa foi grande. Porque Emiliano é negra, enquanto quase todos os seus colegas são brancos. "As posições de poder no Brasil são dos brancos", diz ela. "Aos negros só restam os piores serviços."

Quando a encontro, depois do trabalho, ela usa um elegante vestido verde com estampas africanas, brincos e unhas pintadas de vermelho. O pai de Emiliano trabalhava como camelô, sua mãe cuidava de idosos. Seu bisavô era escravo.

Agora, a jovem eloquente e decidida tem diante de si uma carreira como advogada. E, por isso, ela é eternamente grata a um homem: "O presidente Lula!" Ela diz que Lula despertou nela e em milhões de outros brasileiros a esperança de um Brasil melhor e criou possibilidades concretas. Só recentemente Emiliano voltou de uma viagem à Europa. Nunca alguém da família dela havia viajado fora do país.

"Nasci nesta nação chamada Brasil", diz Emiliano. "Pobre, negra e filha de família humilde, e desde muito cedo conheci o que era a luta para sobreviver. Muitas vezes não havia o que comer, o que beber, ou o que vestir. Vi no trabalho e estudo a única saída para uma vida melhor, mas foram as oportunidades do governo Lula que me levaram à universidade e me trouxeram aonde estou hoje." Quênia Emiliano acredita que só conseguiu estudar graças à ampliação do Fundo de Financiamento ao Estudante do Ensino Superior (Fies).

Tal como acontece com Gustavo Chavaglia, a origem e a experiência pessoal de Emiliano são fundamentais na avaliação da detenção de Lula. Para ela, é uma prisão política e estratégica: "Faz parte do golpe. Querem um país pobre, um país onde só os ricos e brancos podem estudar." Desde a condenação de Lula, Emiliano sente raiva, tristeza e impotência.

Com Emiliano e Chavaglia, dois polos se enfrentam no Brasil. O ruralista branco da SUV e a estudante negra do vestido africano. Ambos tiveram condições sociais e econômicas completamente diferentes desde o nascimento. Hoje têm visões completamente diferentes do passado. E, portanto, também do futuro.

Philipp Lichterbeck escreve reportagens sobre o Brasil e demais países da América Latina para os jornais 
Tagesspiegel (Berlim), Wochenzeitung (Zurique) e Wiener Zeitung.

----------------

A Deutsche Welle é a emissora internacional da Alemanha e produz jornalismo independente em 30 idiomas.